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Blog EntryNov 17, '04 12:56 AM
for everyone
Eu estava nesse blog (http://fallujapictures.blogspot.com/) e me peguei comentando com os meus botões (ainda se fala isso?) que "guerra é isso mesmo", "não se tem como fazer um omelete sem quebrar os ovos", que "depois da sujeira, vem alguém e limpa", e coisas-padrão como se fossem um mecanismo automático de defesa.

Vejam bem, não acho que o mundo é belo, que as auroras trazem uma nova esperança de vida ou que o limiar de um ano novo renova a minha fé no ser humano. Historicamente, essa ação americana no Iraque é fichinha perto do que aconteceu no passado, fichinha percentual e absoluta mesmo. Se comparadas com a Segunda Grande Guerra, com a colonização das Américas, com a expansão de Roma, com as diversas guerras na idade média européia, as ações americanas no Iraque (de Bush pai e Bush filho) são até mesmo assépticas.

Mas vou descendo a página e encaro uma criatura nos olhos. Olho no olho do morto. Não é uma criança, nem aparentava ser um civil, pois tinha uniforme militar (ou algo que o valha, era uma mortalha negra, me lembrava um Shiita árabe). Aí me caiu uma ficha.

O que, me revela, o site, é que esses mortos (soldados, civis, adultos, crianças, homens, mulheres, americanos, iraquianos) têm nome, sobrenome, pais, mães, sonhos, projetos, força de trabalho, capacidade de consumo, habilidades. O que me revela, quando a ficha cai, é que a sociedade que seria o ápice de uma cultura individualista, egóica, desaprendeu ou nunca soube direito reconhecer no outro, um alguém.

Explico: ninguém quer ser um "looser", nos EUA, no Brasil, na Inglaterra, no Canadá ou na França. Por "looser" leia-se, medíocre, mirrado, diluído na massa ignara e anônima. Todos querem ser "alguém" na vida.

Acontece que esse fenômeno é relativamente recente (me corrija alguém, se eu estiver errado!). Apesar de sempre termos o culto à personalidade no passado, este era restrito à determinadas castas sociais: à nobreza, à corte de um rei, aos homens santos ou iluminados. E a cultura, em si, era de controle e de nivelamento das expectativas de vida da massa. Ou seja, a maioria das pessoas eram "loosers". A grande massa era medíocre e não almejava ser mais que isso. Ou se contentava em ser força bruta, ou esperava a redenção depois da morte.

Isso não mudou muito nos últimos 500 anos. Tá certo que, com a ascensão da burguesia, muito dessa moral é revisada e vem dar no que temos hoje, com a forma de pensar do ocidental.

Mas o estranho é que o mesmo processo não se dá no Oriente. Não sei se por ignorância minha, mas não consigo imaginar o mesmo comportamento na China, índia ou mesmo na "faixa árabe". É questão de evolução social mesmo, de tentar entender como se deu a formação dessas sociedades para chegar nos olhos do muçulmano (ou americano, chinês, brasileiro) caído, sem nome, família ou sonhos


alexeiol wrote on Nov 17, '04
"O que, me revela, o site, é que esses mortos (soldados, civis, adultos, crianças, homens, mulheres, americanos, iraquianos) têm nome, sobrenome, pais, mães, sonhos, projetos, força de trabalho, capacidade de consumo, habilidades. O que me revela, quando a ficha cai, é que a sociedade que seria o ápice de uma cultura individualista, egóica, desaprendeu ou nunca soube direito reconhecer no outro, um alguém."

O que me apavora mais do que me revolta é que a humanidade desperdiça TODOS os recursos do planeta. Inclusive, os RECURSOS HUMANOS. Somos mais de 6 bilhões de cérebros... Mas só UM BILHÃO E POUCOS tem a oportunidade de desenvolvê-lo plenamente. O resto, morre sem jamais ter uma oportunidade de mostrar que, talvez, em vez de mendigo, pivete, ladrão, assassino, traficante ou político, poderia ser artista, cientista, filósofo, enfim, contribuir para tornar a vida de todos um pouco melhor...
mclauth wrote on Nov 17, '04
Olá Zander!
Os seus posts ainda estão no padrão western.
Configure antes de postar para Unicode UTF 8.
Desculpe...é só um toque.
roney wrote on Nov 18, '04
Cara! Tenho pensado muito nisso e até escrevi alguma coisa sobre o assunto, não lembro se foi no blog ou no olá que mando toda semana para os amigos, mas suas palavras me fizeram elaborar mais o pensamento.

A gente está vivendo em um mundo de mendigos onde todos sonham ser reis. Não dá para todo mundo ser rei até porque para ter rei tem que ter servo!

Acho que vc está certo e há culturas mais sábias que encontram a realização na mediocridade, lembrando que ser medíocre é ser mediano, é ser igual.

A nossa corrida por estar acima não vai resultar em outro mundo além de um mundo de conflitos!

Caso não tenha ficado claro quero dizer que adoro os seus textos, viu? ;-)
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Zander



Sou Zander Catta Preta.

Sou Zander Catta Preta.

Tenho quarenta anos, carioca, desterrado em São Paulo. Conto as histórias que vivi como se fosse de outrem. E as histórias dos outros como se fossem minhas. Revelo o patético, o humano, o carnal das relações mais inocentes.

Eu era alguém até ontem. Desde o nascimento fui diveresas pessoas, personagens, criaturas. Fato é que não quero ser coisa alguma. Estou sendo. Sou transitório, imperene, diáfano e efêmero.

Quem eu sou? Um mistério em um livro aberto. Uma farsa, um travesti pós-moderno. E cobro em euros.

Mas não sou feito de razões. Estas eu deixo para pagar as minhas contas. O que tenho para o mundo é minha veia aberta, o meu core sangrado e exposto.

Ou não.