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Blog EntrySep 10, '05 9:52 PM
for everyone

Chegara em casa às duas da madrugada, passando as chaves na portaria com cuidado para não acordar o porteiro. Não queria que fosse descoberto assim, sorrindo à toa, como se estivesse feliz ou coisa parecida. Mas sabia que estava com uma cara de moleque que quebrou vidraça ou que ganhou bola nova ou que tirou palito premiado no picolé.

Estava com um sorriso tal que engoliria um sol.

Entrou no elevador. Olhou no espelho. Viu um cara diferente do que tinha deixado ali, no reflexo. A barriga ainda era flácida, mesmo que a contraísse ainda que involuntariamente. Os cabelos já eram ralos na cabeça, entradas fundas. O que era grisalho antes, nas têmporas, era quase branco agora. Mas ainda e tão somente nas têmporas. A barbicha bem cuidada não tinha pelo branco. Aliás. Tinha sim. Mas ele os pinçava.

E o sorriso ofuscava quaisquer outros defeitos que tivesse.

Apertou o nono andar. Subia como um cágado manco, andar a andar. Encostou na parede do espelho e tinha em si uma certeza, uma firmeza de caráter que nunca encontrara antes. Olhava os andares a passar um a um, contando os segundos para chegar em casa. Playground, terceiro andar, quarto andar. Mmmm vontade de mijar. Quinto, sexto. Chega logo, cacete. Sétimo, oitavo. Anda! Anda! Nono!

Abriu correndo a porta, correu pro novecentos e onze. Puxou a chave no caminho e selecionou a certa insistivamente. Merda! Não é mijo! O corvo tá bicando a cueca! Abriu a porta de sopetão e se jogou no banheiro com o caminho ainda em breu.

Aliviado, fechou a porta de casa, acendeu a luz da sala. Diminuiu o brilho no dimmer. Pousou o celular no carregador, em frente ao computador. Ligou o monitor e viu as mensagens que recebera na noite. Centenas de mulheres deixavam recados! Não, milhares! Duas!

Fechou o programa de mensagens instantâneas. Verificou as descargas de arquivos. Foi à cozinha. Preparou um sanduíche de feijão com geléia de morango e shoyu e sentiu falta do queijo parmesão ralado. Sentou no micro para ler emails e sentiu que iria se aborrecer. Nada estragaria o seu sentimento agora. Encarou os emails e confirmou que, se fosse em um outo momento, talvez umas duas semanas atrás, surtaria e pegaria o celular para ligar para pessoas que não queriam mais ser ligadas a ele. Assentiu e consentiu com o desejo alheio e deixou escapar singelamente: “Vaca!”

Navegou um pouco na internet, descobriu sensacionais sites inúteis, desprovidos de qualquer informação relevante. Abriu o tradicional site de putaria e não ficou animado a descer qualquer um dos vídeos amadores que lá estavam.

Acabou com o sanduíche e se perguntava por que comia aquela merda todas as noites. Deveria variar de vez em quando. Trocar a geléia por mostarda e o feijão por lentilhas. Achou que não era boa idéia. Já tinha problemas suficientes com gases e flatulência. Mas toparia uma pizza de alho e óleo. Fazia tempo que não comia em respeito com pessoas que dividiam o mesmo ambiente que ele.

Ligou na Discovery que anunciava um documentário sobre o sistema solar. Riu baixinho para si mesmo e colocou um DVD. Faziam oito meses que não assistia Manhattan novamente e achou que estava mais que na hora de revê-lo.

Ao acabar, se pegou choramingando mas ainda com aquele diabo de sorriso na cara. “Porra! Vou ser sacaneado se sair na rua assim amanhã!” Levantou, tirou o DVD e colocou um CD do Suede bem baixinho. Cantou Trash para si mesmo com lágrimas nos olhos e resolveu amanhecer. Já eram dez para as seis, né? Já tava de bom tamanho!

Abriu a janela e se espreguiçou. Sabia que ele seria um bom doze de setembro.


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zander wrote on Sep 10, '05
Larica é foda...

já comeu pizza de muzzarela fria, com banana e canela?
bimansur wrote on Sep 10, '05, edited on Sep 10, '05
Dá pra tirar pelo menos duas interpretações. Gosto do seu jogo de palavras e da ambiguidade que flui dos seus textos.
liviasantana wrote on Sep 20, '06
Aniversário...mmm
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Zander



Sou Zander Catta Preta.

Sou Zander Catta Preta.

Tenho quarenta anos, carioca, desterrado em São Paulo. Conto as histórias que vivi como se fosse de outrem. E as histórias dos outros como se fossem minhas. Revelo o patético, o humano, o carnal das relações mais inocentes.

Eu era alguém até ontem. Desde o nascimento fui diveresas pessoas, personagens, criaturas. Fato é que não quero ser coisa alguma. Estou sendo. Sou transitório, imperene, diáfano e efêmero.

Quem eu sou? Um mistério em um livro aberto. Uma farsa, um travesti pós-moderno. E cobro em euros.

Mas não sou feito de razões. Estas eu deixo para pagar as minhas contas. O que tenho para o mundo é minha veia aberta, o meu core sangrado e exposto.

Ou não.