Chegara em casa às duas da madrugada,
passando as chaves na portaria com cuidado para não acordar o porteiro. Não
queria que fosse descoberto assim, sorrindo à toa, como se estivesse feliz ou
coisa parecida. Mas sabia que estava com uma cara de moleque que quebrou
vidraça ou que ganhou bola nova ou que tirou palito premiado no picolé.
Estava com um sorriso tal que engoliria um
sol.
Entrou no elevador. Olhou no espelho. Viu
um cara diferente do que tinha deixado ali, no reflexo. A barriga ainda era
flácida, mesmo que a contraísse ainda que involuntariamente. Os cabelos já eram
ralos na cabeça, entradas fundas. O que era grisalho antes, nas têmporas, era
quase branco agora. Mas ainda e tão somente nas têmporas. A barbicha bem
cuidada não tinha pelo branco. Aliás. Tinha sim. Mas ele os pinçava.
E o sorriso ofuscava quaisquer outros
defeitos que tivesse.
Apertou o nono andar. Subia como um cágado
manco, andar a andar. Encostou na parede do espelho e tinha em si uma certeza,
uma firmeza de caráter que nunca encontrara antes. Olhava os andares a passar
um a um, contando os segundos para chegar em casa. Playground, terceiro andar,
quarto andar. Mmmm vontade de mijar. Quinto, sexto. Chega logo, cacete. Sétimo,
oitavo. Anda! Anda! Nono!
Abriu correndo a porta, correu pro
novecentos e onze. Puxou a chave no caminho e selecionou a certa
insistivamente. Merda! Não é mijo! O corvo tá bicando a cueca! Abriu a porta de
sopetão e se jogou no banheiro com o caminho ainda em breu.
Aliviado, fechou a porta de casa, acendeu a
luz da sala. Diminuiu o brilho no dimmer.
Pousou o celular no carregador, em frente ao computador. Ligou o monitor e viu
as mensagens que recebera na noite. Centenas de mulheres deixavam recados! Não,
milhares! Duas!
Fechou o programa de mensagens
instantâneas. Verificou as descargas de arquivos. Foi à cozinha. Preparou um
sanduíche de feijão com geléia de morango e shoyu e sentiu falta do queijo
parmesão ralado. Sentou no micro para ler emails e sentiu que iria se
aborrecer. Nada estragaria o seu sentimento agora. Encarou os emails e
confirmou que, se fosse em um outo momento, talvez umas duas semanas atrás,
surtaria e pegaria o celular para ligar para pessoas que não queriam mais ser
ligadas a ele. Assentiu e consentiu com o desejo alheio e deixou escapar
singelamente: “Vaca!”
Navegou um pouco na internet, descobriu
sensacionais sites inúteis, desprovidos de qualquer informação relevante. Abriu
o tradicional site de putaria e não ficou animado a descer qualquer um dos
vídeos amadores que lá estavam.
Acabou com o sanduíche e se perguntava por
que comia aquela merda todas as noites. Deveria variar de vez em quando. Trocar
a geléia por mostarda e o feijão por lentilhas. Achou que não era boa idéia. Já
tinha problemas suficientes com gases e flatulência. Mas toparia uma pizza de
alho e óleo. Fazia tempo que não comia em respeito com pessoas que dividiam o
mesmo ambiente que ele.
Ligou na Discovery que anunciava um
documentário sobre o sistema solar. Riu baixinho para si mesmo e colocou um
DVD. Faziam oito meses que não assistia Manhattan novamente e achou que estava
mais que na hora de revê-lo.
Ao acabar, se pegou choramingando mas ainda
com aquele diabo de sorriso na cara. “Porra! Vou ser sacaneado se sair na rua
assim amanhã!” Levantou, tirou o DVD e colocou um CD do Suede bem baixinho.
Cantou Trash para si mesmo com lágrimas nos olhos e resolveu amanhecer. Já eram
dez para as seis, né? Já tava de bom tamanho!
Abriu a janela e se espreguiçou. Sabia que
ele seria um bom doze de setembro.